Millennials ou Seniores?

Luiz Goes

O Brasil e o Mundo de hoje dedicam-se a estudar profundamente as mudanças que estão sendo causadas pelo fenômeno dos Millennials, tecnicamente assim chamados os indivíduos nascidos entre 1980 e 2000 e que hoje, no ano de 2017 possuem entre 17 e 37 anos de idade.

É certo que esta geração vem trazendo uma movimentação bastante atípica no mercado de consumo, especialmente quando se alia à tecnologia que também não perde tempo ao se modificar segundo a segundo. Existe uma preocupação enorme em compreender estas atitudes e assim pode construir a melhor oferta, aquela com mais valor para este público.

Que esta discussão sobre o efeito Millennials nas organizações, nos produtos, nos relacionamentos, nos negócios de forma geral e até mesmo na postura ética, moral e espiritual das pessoas é fundamental, não resta a menor dúvida. O ponto é: e o que mais merece ser estudado além disto ou mesmo valorizado quando lançamos um olhar para o futuro, daqui a 10, 20 ou 30 anos?

É importante trazer alguns números a esta discussão e para tanto vamos buscar as projeções populacionais feitas pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e que vão até o ano de 2060, portanto até daqui a 43 anos.

Agora, no ano de 2017 o Brasil possui cerca de 72 milhões de Millennials e cerca de 26 milhões de seniores, ou seja, pessoas com idade acima dos 60 anos. Um olhar apenas instantâneo nos leva a dizer que é óbvio que o foco atual deve estar nos Millennials. Observando as projeções populacionais um pouco mais à frente, verificamos que já em 2019, portanto em apenas dois anos, este grupo de jovens brasileiros começa a diminuir em uma razão que cresce em pontos porcentuais ano a ano e se inicia em 2017 com uma queda anual de 0,14% chegando por volta de 2040 a uma queda também anual, de 1,27%. Agora analisando as previsões para o grupo dos mais idosos o que se verifica é que no mesmo ano de 2019 quando se inicia o encolhimento dos Millennials esta parcela populacional estará crescendo a uma taxa de 4,10% ao ano. É fácil de se prever que em algum momento estas duas fatias da população irão ter o mesmo tamanho já que uma cresce e a outra tende a diminuir. Por outro lado, a intuição deve nos levar a pensar que este equilíbrio vai acontecer em algum ponto muito, mas muito distante daqui e que não conseguimos alcançar com nossa mente. Pois bem, a surpresa é que a velocidade de crescimento e de queda é tão expressiva que por volta do ano de 2044 as duas porções terão os mesmos tamanhos e iguais a 59 milhões de pessoas, correspondendo, cada uma, a cerca de 25% da população brasileira à época. É importante ressaltar que a população brasileira como um todo deverá começar o seu declínio na mesma época, quando atingiremos 228 milhões de habitantes, passando então a diminuir, chegando em 2060 a 218 milhões, ou seja, o mesmo número que alcançaremos em 2025.

 

E seria este um fenômeno apenas brasileiro? A resposta quem nos ajuda a dar são os dados de projeção populacional do Census Bureau Americano. A população americana de Millennials soma hoje cerca de 90 milhões de pessoas, enquanto que os Seniores chegam a 70 milhões. Por volta de 2030, portanto algo como 15 anos antes do que acontecerá no Brasil e daqui a apenas 13 anos, as parcelas serão do mesmo tamanho com 94 milhões de habitantes cada uma e correspondendo a cerca de 26% em relação à população americana. A diferença das projeções populacionais brasileira e americana está no fato da segunda não apontar queda até 2060, como acontecerá conosco, porém mantendo a paridade entre estas duas populações.

 

O que queremos chamar a atenção com estes números é que, sem dúvida alguma, é importante estudarmos hoje os efeitos dos atuais Millennials na economia Global, Americana e Brasileira, porém, mais importante do que isto é que as empresas e os pensadores não deixem de avaliar o que vem pela frente e que vai redesenhar o perfil populacional, especialmente do mundo ocidental mais do que foi visto nos últimos séculos. Os Millennials continuarão a ser importantes, porém os Seniores serão ainda mais relevantes do que são hoje e não podem ser deixados para trás com todas as necessidades específicas que continuarão a diferencia-los dos mais jovens de forma evidente. Os Millennials mais velhos que hoje estão com cerca de 37 anos, em 23 anos serão enquadrados como Seniores e trarão uma visão totalmente diversa da que se tem do Sênior de hoje. E qual será esta visão? Será que as empresas, as indústrias, os prestadores de serviços deverão deixar para pensar nestas situações específicas apenas em uma ou duas décadas ou será que este processo deve ser introduzido na realidade das corporações imediatamente para que continue na pauta pelos próximos anos e não permita que esta discussão se perca?

 

Os avanços tecnológicos da atualidade trouxeram ao homem moderno, inegavelmente, uma visão muito imediatista. A maneira de realizar tarefas, de comprar, de se relacionar, de se espiritualizar mudam de forma tão veloz que os horizontes de futuro acabam sendo reduzidos significativamente. A nosso ver, as empresas de sucesso, há 60 anos, há 30 anos, hoje ou então no futuro, serão aquelas capazes de antecipar movimentos, de se preparar para mudanças, de antever cenários e possíveis acontecimentos. Assim, as empresas que incorporarem desde já processos contínuos de inovação e de planejamento de cenários, serão aquelas que irão se adaptar mais facilmente ao novo perfil de habitantes e, consequentemente de consumidores e usuários de produtos e serviços.

 

Muitas vozes se levantam contra estas colocações dizendo que é muito cedo para pensar o que acontecerá em 20 ou 30 anos. Se a intenção for prever exatamente o que acontecerá neste período é melhor mesmo abandonar a ideia. O que entendemos deva ser absorvido pelas empresas, e por que não também por organismos púbicos no Brasil, que tradicionalmente não pensam no amanhã de maneira sistêmica e planejada é que passem a assumir uma visão de longo prazo para os seus negócios. Muito ainda está por vir, mudanças tecnológicas e comportamentais que influenciarão sobremaneira o ser humano. Lancemos mão do que preconizam os futuristas, profissionais dedicado ao estudo do futuro, que dizem que planejar cenários não é prever o que vai acontecer, mas sim conhecer o que pode ou deverá acontecer, ou seja, identificar as fronteiras por onde andará o futuro. A Singularity University fundada e mantida por empresas de renome, dentre elas NASA e Google, propõe avaliar, por exemplo, como a tecnologia poderá impactar positivamente bilhões de habitantes do planeta Terra, incorporando aos cursos que oferece ferramentas de predição e avaliação. O alcance desta visão nos cursos desta entidade já está a algumas décadas à frente.

 

O Mundo vai mudar, mas o Brasil vai mudar mais fortemente em seu perfil de consumo e de necessidades em relação ao que conhecemos hoje, além de ter uma população em processo de encolhimento. A necessidade por educação básica e fundamental será outra. O que será das escolas de hoje? Teremos escolas físicas ou a educação será integralmente virtual? Os hospitais serão certamente mais demandados, porém é certo que a tecnologia vai permitir ao mesmo tempo que se viva mais e que doenças sejam muito precocemente detectadas e tratamentos cada vez mais eficazes apareçam. Quais impactos isto trará para o dia a dia das pessoas? E para cada empresa e seus negócios?

 

Existem inúmeras interrogações quanto ao que possa acontecer, mas uma única coisa será inevitável: o perfil etário será outro implicando em mudanças drásticas no cotidiano. Quem quiser aceitar e incorporar o desafio no dia a dia de seus negócios muito provavelmente terá uma chance de sucesso maior do que aqueles que optarem por deixar para pensar mais à frente. O tempo dirá quem tem razão.